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| Pintura de São Gonçalo Garcia |
Nesse momento, grupos pardos em Pernambuco uniram-se e
prol da mesma causa, tais grupos eram a Irmandade
do Livramento e os franciscanos. Esses, apesar de objetivos diversos,
estavam unidos em favor da eleição e da institucionalização da devoção a um
santo pardo.
É fato que os homens pardos já constituíam um grande
número populacional e de expressiva economia em Pernambuco no século XVIII.
Nada mais oportuno que tais trabalhadores e intelectuais mestiços, de grande
importância para o cotidiano da capitania pleiteassem uma posição social de
mais valor, inclusive na religião. É nesse clima social que os Freis Antônio de
Santa Maria Jaboatão e de Manuel da Madre de Deus aparecem como figuras
centrais na divulgação do culto em Recife ao santo pardo e franciscano, São
Gonçalo Garcia.
Ao colocar a imagem do santo pardo em um dos altares
colaterais, a Irmandade do Livramento dos
Homens Pardos do Recife estabelece uma frente de ação com a finalidade de
criar um espaço de negociações de seus interesses. A presença de um santo
mestiço no altar lateral da igreja gerava um grande impacto nos integrantes da
irmandade e na comunidade parda em geral, devido a legitimação da possibilidade
de mobilização social, seja na própria sociedade, seja na estrutura hierárquica
da Igreja. Para uma hierarquia eclesiástica dominada pelos cristãos velhos ter
em um dos altares e a existência de uma festividade devota a um santo pardo
gerou esperanças de participação religiosa mais ativa na colônia para os homens
pardos. Isso porque no mundo ibérico a devoção a santos era um grande aliado do
Estado como instrumento de acomodação social, devido a exigência de virtude e
santidade espelhada pela figura dos santos.
A própria Igreja estimulou a devoção de santos de cor, através das
irmandades, do clero secular e das ordens religiosas, a fim de promover a
conversão dos negros, principalmente nos centros urbanos.
A Ordem do Carmo
assumiu bem essa proposta de conversão dos negros e seus descendentes através
do culto de Santo Elesbão e de Santa Efigênia, levando em conta a numerosa
população de cor na colônia e disputa entre as ordens por mais
representatividade no interior da Igreja colonial. Um bom exemplo dessa disputa
entre as ordens religiosas envolvendo a expressiva população de cor na colônia
são os franciscano com o culto a São Benedito, o “santo preto”, descendente de
escravo. Os franciscanos ainda reforçavam o culto da Imaculada Conceição, no
início do século XVIII. Lembrando que o culto a dita santa já existia desde o
século XVI, congregando a irmandade que leva seu nome a elite açucareira até a
invasão holandesa.
Os dominicanos também contribuíram na divulgação dos
santos negros,
principalmente o culto a Nossa Senhora do Rosário dos Homens
Pretos. Não só isso, através desses os negros foram incentivados à participarem
das irmandades, primeiramente para brancos, depois fundando suas próprias
confrarias.
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| Imagem de São Gonçalo Garcia |
É importante ressaltar que a historiografia não pode
afirmar que o culto ao santo pardo São Gonçalo Garcia foi de aderência unânime
entre os franciscanos. Por outro lado, os sermões dos frades franciscanos
demonstram essa inquietação a respeito da presença do culto do santo pardo na
ordem franciscana.
Ter dinheiro na colônia
não bastava para ser reconhecido socialmente, por isso muitos pardos
enriquecidos lutavam por mais visibilidade social, mas para a lógica colonial
seu sangue era infecto. Nesse contexto, os frades franciscanos foram de
fundamental importância no Recife, principalmente na divulgação do culto ao
santo São Gonçalo Garcia. Em outros anos posteriores, a festividade de devoção
ao santo pardo aconteceu recebendo até, em um dos anos, o governador da
Capitania de Pernambuco, Luis Correia de Sá. A festividade continuou ocorrendo
entre 1753 a 1755.
O
luxo e a ostentação na festividade marcavam a competição entre as ordens
religiosas coloniais. O objetivo era chamar para si as atenções da sociedade
para o poder econômico que a irmandade e seus irmãos possuíam. Aos que não
gostavam da ideia de um santo pardo, tentavam refutar com a negação do status
de “pardo legítimo”. Contavam com pregações para legitimar suas posições.
A
elite resistia, não aceitava a possibilidade da santidade de alguém de cor,
mesmo já havendo vários santos mestiços. Se a elite pernambucana aceitasse de
bom grado santos pardos no cotidiano religioso da capitania estariam também
motivando a população parda a acreditar numa igualdade entre os homens, assim
como é perante Deus. O Frei Antônio de Santa Maria Jaboatão, apesar de contrariar
a lógica social época, utilizava de seus sermões para instigar na população
mestiça um certo orgulho por ter como padroeiro um santo pardo, gerando
esperança em dia melhores. Ora, se Deus aceita santos pardos, também aceitariam
os homens que os mestiços gozassem de fortúnios aqui na Terra, ao qual estavam
excluídos por terem cor.
Adaptado do texto de JANAÍNA DO S. BEZERRA
E SUELY DE ALMEIDA, com o título de "SÃO GONÇALO GARCIA E ALUTA DOS PARDOS POR INSERÇÃO SOCIAL NO SÉCULO XVIII"


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