quinta-feira, 7 de julho de 2016

SÃO GONÇALO GARCIA E A LUTA DOS PARDOS POR INSERÇÃO SOCIAL NO SÉCULO XVIII

           
Pintura de São Gonçalo Garcia
   Em 1745, aconteceu uma enorme festa religiosa e profana, em homenagem a São Gonçalo Garcia, um santo pardo. Devido à cor parda do santo, o evento tornou-se uma manifestação de aclamação à cor parda e a oportunidade de negociações política por inserção e respeito social por parte dos participantes. Vale ressaltar que a festividade foi patrocinada pelos homens pardos do Recife.
            Nesse momento, grupos pardos em Pernambuco uniram-se e prol da mesma causa, tais grupos eram a Irmandade do Livramento e os franciscanos. Esses, apesar de objetivos diversos, estavam unidos em favor da eleição e da institucionalização da devoção a um santo pardo.
            É fato que os homens pardos já constituíam um grande número populacional e de expressiva economia em Pernambuco no século XVIII. Nada mais oportuno que tais trabalhadores e intelectuais mestiços, de grande importância para o cotidiano da capitania pleiteassem uma posição social de mais valor, inclusive na religião. É nesse clima social que os Freis Antônio de Santa Maria Jaboatão e de Manuel da Madre de Deus aparecem como figuras centrais na divulgação do culto em Recife ao santo pardo e franciscano, São Gonçalo Garcia.
            Ao colocar a imagem do santo pardo em um dos altares colaterais, a Irmandade do Livramento dos Homens Pardos do Recife estabelece uma frente de ação com a finalidade de criar um espaço de negociações de seus interesses. A presença de um santo mestiço no altar lateral da igreja gerava um grande impacto nos integrantes da irmandade e na comunidade parda em geral, devido a legitimação da possibilidade de mobilização social, seja na própria sociedade, seja na estrutura hierárquica da Igreja. Para uma hierarquia eclesiástica dominada pelos cristãos velhos ter em um dos altares e a existência de uma festividade devota a um santo pardo gerou esperanças de participação religiosa mais ativa na colônia para os homens pardos. Isso porque no mundo ibérico a devoção a santos era um grande aliado do Estado como instrumento de acomodação social, devido a exigência de virtude e santidade espelhada pela figura dos santos.  A própria Igreja estimulou a devoção de santos de cor, através das irmandades, do clero secular e das ordens religiosas, a fim de promover a conversão dos negros, principalmente nos centros urbanos.
            A Ordem do Carmo assumiu bem essa proposta de conversão dos negros e seus descendentes através do culto de Santo Elesbão e de Santa Efigênia, levando em conta a numerosa população de cor na colônia e disputa entre as ordens por mais representatividade no interior da Igreja colonial. Um bom exemplo dessa disputa entre as ordens religiosas envolvendo a expressiva população de cor na colônia são os franciscano com o culto a São Benedito, o “santo preto”, descendente de escravo. Os franciscanos ainda reforçavam o culto da Imaculada Conceição, no início do século XVIII. Lembrando que o culto a dita santa já existia desde o século XVI, congregando a irmandade que leva seu nome a elite açucareira até a invasão holandesa.
            Os dominicanos também contribuíram na divulgação dos santos negros,
Imagem de São Gonçalo Garcia
principalmente o culto a Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos. Não só isso, através desses os negros foram incentivados à participarem das irmandades, primeiramente para brancos, depois fundando suas próprias confrarias.
            É importante ressaltar que a historiografia não pode afirmar que o culto ao santo pardo São Gonçalo Garcia foi de aderência unânime entre os franciscanos. Por outro lado, os sermões dos frades franciscanos demonstram essa inquietação a respeito da presença do culto do santo pardo na ordem franciscana.
           Ter dinheiro na colônia não bastava para ser reconhecido socialmente, por isso muitos pardos enriquecidos lutavam por mais visibilidade social, mas para a lógica colonial seu sangue era infecto. Nesse contexto, os frades franciscanos foram de fundamental importância no Recife, principalmente na divulgação do culto ao santo São Gonçalo Garcia. Em outros anos posteriores, a festividade de devoção ao santo pardo aconteceu recebendo até, em um dos anos, o governador da Capitania de Pernambuco, Luis Correia de Sá. A festividade continuou ocorrendo entre 1753 a 1755.
O luxo e a ostentação na festividade marcavam a competição entre as ordens religiosas coloniais. O objetivo era chamar para si as atenções da sociedade para o poder econômico que a irmandade e seus irmãos possuíam. Aos que não gostavam da ideia de um santo pardo, tentavam refutar com a negação do status de “pardo legítimo”. Contavam com pregações para legitimar suas posições.
A elite resistia, não aceitava a possibilidade da santidade de alguém de cor, mesmo já havendo vários santos mestiços. Se a elite pernambucana aceitasse de bom grado santos pardos no cotidiano religioso da capitania estariam também motivando a população parda a acreditar numa igualdade entre os homens, assim como é perante Deus. O Frei Antônio de Santa Maria Jaboatão, apesar de contrariar a lógica social época, utilizava de seus sermões para instigar na população mestiça um certo orgulho por ter como padroeiro um santo pardo, gerando esperança em dia melhores. Ora, se Deus aceita santos pardos, também aceitariam os homens que os mestiços gozassem de fortúnios aqui na Terra, ao qual estavam excluídos por terem cor.

Adaptado do texto de JANAÍNA DO S. BEZERRA E SUELY DE ALMEIDA, com o título de "SÃO GONÇALO GARCIA E ALUTA DOS PARDOS POR INSERÇÃO SOCIAL NO SÉCULO XVIII"

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