segunda-feira, 4 de julho de 2016

REGIÃO, SERTÃO, NAÇÃO


            Apesar de ao falarmos de sertão na maioria dos casos pensamos logo na região Nordeste do Brasil. No entanto, desde os primeiros momentos da colônia até os dias atuais, a palavra “sertão” expressa alguma espacialidade longínqua, utilizada de norte a sul do Brasil. Porém o IBGE distingue o que é sertão: como espaço brasileiro que designa oficialmente uma das subáreas nordestina, árida e pobre, situada no oeste das suas outras subáreas – “agreste” e “litoral”.
          
cena de Morte e Vida Severina
  “Sertão” é muito mais que uma categoria geográfica, de um recorte regional é, além de tudo, uma categoria social, utilizada desde o século XVI. Já na virada do século XIX para o XX, “sertão” chegou a construir categoria absolutamente essencial em todas as construções historiográficas que tinham como tema básico a nação brasileira. No entanto, a compreensão de “sertão” não representou de forma unânime entre os historiadores do século XX, como Carnhagen, Capistrano de Abreu e Oliveira Viana, reunidos em torno do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, utilizando e refinando o conceito. Outros historiadores da fase pré-marxista, como Euclides da Cunha e Nelson Werneck Sodré, e, mais adiante, Sérgio Buarque de Hollanda e Cassiano Ricardo, trabalharam de formas diferentes com a categoria “sertão”. A partir da década de 1950, a discussão sobre a categoria “sertão” passou a ser mais contundente entre os sociólogos, como Maria Isaura Pereira Queiroz, Douglas Teixeira Monteiro e Maurício Vinhas de Queiroz, alem dos antropólogos, em escala menor, como Neide Esterci e Otávio Velho. Só na década de 1990 a discussão reaparece com mais força entre os historiadores, como Giucci e Monteiro.
            Desde muito cedo, o “sertão” constituiu uma categoria de entendimento do Brasil, de início na condição de colônia portuguesa e, após o século XIX, como nação, a partir do pensamento social. Além de uma categoria social, “sertão” também constitui uma categoria cultural, intensamente utilizada na literatura, principalmente na literatura popular e no cordel. Podemos citar na poesia romântica Álvares de Azevedo, Castro Alves e Junqueira Freire; na prosa romântica, Bernardo Guimarães, José de Alencar e outros; além de alguns outros nomes importantes na literatura realista que exploraram bem a categoria “sertão”; na literatura regionalista, que tem seu lugar de destaque, principalmente naquela “geração de 30”, como Graciliano Ramos, Raquel de Queirós, José Lins do Rego, Jorge Amado, dentre outros; em meados de 1965, destaca-se aquele que de forma mais completa abordou o
cenas da primeira versão de Gabriela (1975)
tema “sertão” em sua literatura, João Guimarães Rosa, como escavador dos sertões misteriosos, míticos e ambíguos; por fim, não se pode deixar de citar literários como Ariano Suassuna, João Ubaldo Ribeiro e Francisco Dantas que recontaram brilhantemente o “sertão”.
            O “sertão” foi exaustivamente tema da literatura, dramaturgia – novelas, minisséries, teatro, filmes, curtas, dentre outras produções artísticas, provavelmente como a categoria sócio-cultural mais entranhada no imaginário, identidade e história brasileira.
            Provavelmente o termo “sertão” tenha sido utilizado logo no século XII, mas com certeza no século XIV. Era grafada para designar áreas interioranas em Portugal, porém distante de Lisboa, podendo ser escrita “sertão” ou “certão”. Já no século XV, o termo passou a designar áreas não só distantes de Lisboa, como no interior de Portugal, mas também nas novas possessões na formação do império português. Os “certões” ou “sertões” designavam, no geral, áreas vastas, interiores, situadas dentro de possessões recém-conquistadas, sobre as quais pouco ou nada se sabiam – terras na África, Ásia e América.
            Pelo o que demonstra as documentações referentes a área de mineração, a aglomeração de pessoas, nascimento de vários centros urbanos, enriquecimentos pessoais e alta burocratização da atividade mineradora, não modificou o sentido de sertão às áreas de demarcação aurífera no interior do Brasil. Desde o início de nossa história colonial até a chegada do século XX, “sertão” manteve esse sentido de terras selvagens, longe dos centros civilizados, sem leu e nem rei, sendo utilizado por inúmeros viajantes, nacionais e internacionais.
            De início, o termo “sertão” foi importado pelos portugueses, bem como seus significados. Com o passar do tempo e com o processo gradual da construção histórica, social e cultural da colônia, novos sentidos foram incorporados aos antigos.
principais personagens da novela Velho Chico (2016)
Desde os primeiros anos da presença portuguesa no Brasil, a categoria “sertão” se opôs à “litoral”, ao mesmo tempo que completavam um ao outro. Desse modo, a partir do “litoral”, o “sertão” fora sendo carregado de significados diversos, a medida que representava áreas largas, longínquas, desconhecidas e desabitadas pelo agente colonizador, o “litoral” era não só uma faixa de terra junto ao mar, como também um espaço conhecido, delimitado, colonizado ou em colonização, habitado por outros povos – índios e negros –, mas dominado pelos brancos, um espaço da cristandade, da cultura  e da civilização. Para o português, o Brasil era um grande sertão para um olindense, Recife já lhe representava o mesmo. 

Este texto é um recorte do artigo de JANAÍNA AMADO com o título de "REGIÃO, SERTÃO, NAÇÃO"

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