Apesar de ao falarmos de sertão na maioria dos casos
pensamos logo na região Nordeste do Brasil. No entanto, desde os primeiros
momentos da colônia até os dias atuais, a palavra “sertão” expressa alguma
espacialidade longínqua, utilizada de norte a sul do Brasil. Porém o IBGE
distingue o que é sertão: como espaço brasileiro que designa oficialmente uma
das subáreas nordestina, árida e pobre, situada no oeste das suas outras
subáreas – “agreste” e “litoral”.
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| cena de Morte e Vida Severina |
Desde muito cedo, o “sertão” constituiu uma categoria de
entendimento do Brasil, de início na condição de colônia portuguesa e, após o
século XIX, como nação, a partir do pensamento social. Além de uma categoria
social, “sertão” também constitui uma categoria cultural, intensamente
utilizada na literatura, principalmente na literatura popular e no cordel.
Podemos citar na poesia romântica Álvares de Azevedo, Castro Alves e Junqueira
Freire; na prosa romântica, Bernardo Guimarães, José de Alencar e outros; além
de alguns outros nomes importantes na literatura realista que exploraram bem a
categoria “sertão”; na literatura regionalista, que tem seu lugar de destaque,
principalmente naquela “geração de 30”, como Graciliano Ramos, Raquel de
Queirós, José Lins do Rego, Jorge Amado, dentre outros; em meados de 1965,
destaca-se aquele que de forma mais completa abordou o
tema “sertão” em sua
literatura, João Guimarães Rosa, como escavador dos sertões misteriosos,
míticos e ambíguos; por fim, não se pode deixar de citar literários como Ariano
Suassuna, João Ubaldo Ribeiro e Francisco Dantas que recontaram brilhantemente
o “sertão”.
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| cenas da primeira versão de Gabriela (1975) |
O “sertão” foi exaustivamente tema da literatura,
dramaturgia – novelas, minisséries, teatro, filmes, curtas, dentre outras
produções artísticas, provavelmente como a categoria sócio-cultural mais
entranhada no imaginário, identidade e história brasileira.
Provavelmente o termo “sertão” tenha sido utilizado logo
no século XII, mas com certeza no século XIV. Era grafada para designar áreas
interioranas em Portugal, porém distante de Lisboa, podendo ser escrita
“sertão” ou “certão”. Já no século XV, o termo passou a designar áreas não só
distantes de Lisboa, como no interior de Portugal, mas também nas novas
possessões na formação do império português. Os “certões” ou “sertões”
designavam, no geral, áreas vastas, interiores, situadas dentro de possessões
recém-conquistadas, sobre as quais pouco ou nada se sabiam – terras na África,
Ásia e América.
Pelo o que demonstra as documentações referentes a área
de mineração, a aglomeração de pessoas, nascimento de vários centros urbanos, enriquecimentos
pessoais e alta burocratização da atividade mineradora, não modificou o sentido
de sertão às áreas de demarcação aurífera no interior do Brasil. Desde o início
de nossa história colonial até a chegada do século XX, “sertão” manteve esse
sentido de terras selvagens, longe dos centros civilizados, sem leu e nem rei,
sendo utilizado por inúmeros viajantes, nacionais e internacionais.
De início, o termo “sertão” foi importado pelos
portugueses, bem como seus significados. Com o passar do tempo e com o processo
gradual da construção histórica, social e cultural da colônia, novos sentidos
foram incorporados aos antigos.
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| principais personagens da novela Velho Chico (2016) |
Desde
os primeiros anos da presença portuguesa no Brasil, a categoria “sertão” se
opôs à “litoral”, ao mesmo tempo que completavam um ao outro. Desse modo, a
partir do “litoral”, o “sertão” fora sendo carregado de significados diversos,
a medida que representava áreas largas, longínquas, desconhecidas e desabitadas
pelo agente colonizador, o “litoral” era não só uma faixa de terra junto ao
mar, como também um espaço conhecido, delimitado, colonizado ou em colonização,
habitado por outros povos – índios e negros –, mas dominado pelos brancos, um
espaço da cristandade, da cultura e da
civilização. Para o português, o Brasil era um grande sertão para um olindense,
Recife já lhe representava o mesmo.
Este texto é um recorte do artigo de JANAÍNA AMADO com o título de "REGIÃO, SERTÃO, NAÇÃO"



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