segunda-feira, 27 de junho de 2016

RECIFE DE 1930: FREVO, MALANDRAGEM, CAPANGAS DE DEUS E MÉDIUNS DÉBEIS MENTAIS

                   Na Itália fascista e na Alemanha nazista o passado estava com os dias contados. A vergonha da história recente dos dois países parecia incomodar os líderes das duas nações. Ambos põem em prática um projeto futurista de modificação de suas capitais em todos os âmbitos, principalmente o arquitetônico. O passado deveria dar lugar ao futuro, a modernidade que salvava os alemães e italianos do atraso e da vergonha. Aqui no Brasil o Estado Novo vem para apagar a história da República Velha e inaugurar no país um projeto urbanístico para ficar para sempre na história. Para isso o passado deveria ceder espaço para a modernidade. Em Pernambuco a Interventoria Agamenon Magalhães prometia transformar Recife numa adorável cópia da capital federal, o Rio de Janeiro. Quem nos empresta esses interessantíssimos dados é a autora Maria das Graças Andrade Ataíde de Almeida, no terceiro capítulo de sua obra “A Construção da Verdade Autoritária”.
PRAÇA DO MARCO ZERO DO RECIFE/PE
            Recife era a época da instalação do regime do Estado Novo uma cidade com ar de provinciana, ou seja, atrasada, maltratada e feia de se ver. As ruas cheiravam mal, as pessoas que transitavam nas ruas da capital pernambucana não tinham o mínimo senso de civilidade e bons costumes. Recife na década de 1930 era um "aglomerado de vendedores, descalços, sujos e ausente de inteligência". Não era o bastante, o êxodo rural ainda inchava as ruas recifenses "dessas gentes sem educação, grosseiras e dadas a trabalhos repugnantes". Esses pobres e excluídos da sociedade pernambucana eram um problema para os projetos de modernização urbana de Agamenon Magalhães.
            Como era de esperar, o jornal propagandista do Estado Novo em Pernambuco, o Fôlha da Manhã, ditava para a população as normas civilizatórias da sociedade recifense que deveria ser levada a cabo porque representavam a própria vontade do interventor. Não cansavam de noticiar as obras megalomaníacas de Mussolini e Hittler na Europa, monumentos principalmente, além dos arranha-céus que cortavam o horizonte de Berlim e Roma. Representavam o presente do líder salvador para as futuras gerações, a modernidade. O Rio de Janeiro era a grande musa inspiradora de Agamenon Magalhães, deveria ser importada urgentemente para Recife. Várias obras foram feitas na cidade na administração de Agamenon Magalhães, sempre deificada nas colunas do Fôlha da Manhã, apresentava a população o projeto de reurbanização da cidade do Recife. Os becos, casaris e prédios antigos da parte velha do Recife deveriam ser suplantados pelos mesmos arranha-céus que o Rio de Janeiro tinha, os becos e casas antigas dariam lugar a ruas mais largas e espaçosas, praças para lazer da elite foram construídas e empreendimentos comerciais e hoteleiros foram executados em Recife. Era chique passar o fim da tarde nas confeitarias, ou fazer festas nas dependências de hotéis luxuosos ou até frequentar os bailes dos clubes da cidade, o Clube Internacional do Recife e o Clube Português.
            Parecia que quanto mais se fazia para embelezar o Recife mais coisas precisava se fazer. Isso foi levado tão a sério por Agamenon Magalhães que uma rota turística foi elaborada pela Interventoria, onde firmava com a força policial os pontos turísticos que deveriam ser visitados pelos visitantes. Nada poderia sair do plano de turismo e, muito menos, ser fotografado. Fotografar áreas que não eram permitidas pelo Interventor era crime e fortemente controlado pelos policiais recifense. Tudo para mostrar aos turistas o Recife que o interventor queria que se conhecesse, o Recife oficial e não o Recife real.
            A civilidade urbanística do Recife de nada adiantaria se os recifenses não fossem civilizados, ou pelo menos, se os não-civilizados fossem afastados das ruas da capital do estado. Para isso, o Fôlha da Manhã informava diariamente sobre as regras de como se vestir para transitar nas ruas do Recife. As pessoas eram coagidas de acordo com o que vestia e, principalmente, com o que calçava. Chegou ao ponto de todos os transeuntes serem obrigados a usar sapatos. Pessoas descalças e com roupas surradas destoavam com ar de modernidade e civilidade que Agamenon Magalhães se comprometera estabelecer no Recife. Para isso, mais uma vez as forças policiais agiam em nome do interventor enxotando para longes dos ciclos de lazer e passeios do Recife os pobres, vendedores de todos os tipos de quinquilharias, comidas e bichos, não podendo esquecer-nos dos "imundos engraxates" que se amontoavam do lado de fora dos restaurantes, bares e confeitarias do Recife. O que adiantaria ter confeitarias aos moldes carioca se à porta dessas estavam cheios de engraxates sujos e descalços? A polícia sempre foi ágil para limpar das vistas da elite recifenses esses tipos de pessoas que poluíam as ruas da Veneza brasileira.
            Outro problema antigo que precisava ser solucionado, ou modernizado, eram as linhas de bonde. O próprio Fôlha da Manhã entoava análises preconceituosas contra os usuários das linhas dos bairros populares como Várzea, Afogados e Campo Grande com suas gentes tagarelas e sem educação, contrapondo-se as linhas de Casa Amarela, Dois Irmãos, Olinda, Espinheiro e Boa Viagem que eram utilizados por gente de boa educação, que conversavam aos sussurros e nunca carregavam
AVENIDA BOA VIAGEM - RECIFE/PE
embrulhos. Para Agamenon Magalhães os bondes era um típico exemplo de atraso que deveria ser ultrapassado. Ruas foram calçadas com as técnicas mais modernas à época com a nítida intenção de substituir os bondes pelos ônibus. Mas uma vez destacamos a radicalidade dos governos que sucederam Agamenon Magalhães, enquanto os dois tipos de transportes públicos dividiam as ruas do Rio de Janeiro na década de 1960, no Recife as linhas de bondes foram inteiramente substituídas pelo transporte de passageiros típico da modernidade, os ônibus.
            A modernidade estadonovista da Interventoria Agamenon Magalhães em Pernambuco não podia aceitar algumas manifestações da cultura popular que não seguisse a matriz da capital federal ou da Europa. É nesse contexto que o frevo será bastante combatido pelo jornal Fôlha da Manhã em pregação a favor das festas embaladas pelas bandas de jazz. Até o carnaval pernambucano passou por reformulações para atender essa perspectiva elitista e moderna. Primeiro, o mesmo jornal atacava veemente as festas de ruas ao ritmo do frevo, dito como verdadeiras aglomerações de pessoas enlouquecidas e suadas, nada de civilidade há nessa festa. O bom mesmo eram as festas carnavalescas do Clube Internacional do Recife e do Clube Português que varavam a madrugada com pessoas fantasiadas, com belos adereços e envolvidos pelas bandas de jazz que se alternavam no salão. Essas festas nos clubes recifenses eram manchetes constantes no Fôlha da Manhã, enaltecendo a comedida festividade povoada das "melhores gentes" do Recife.
            O carnaval de rua na foi proibido pelo Interventor, no entanto, a repressão aos desfiles e aos compositores era ferrenha. Nenhuma marchinha deveria ser composta para criticar o regime do Estado Novo, muito pelo contrário, as fantasias e as músicas deveriam enaltecer a pessoa do presidente e do regime. Entretanto, os compositores sempre davam um jeito de burlar a fiscalização optando pelas expressões dúbias, como a da marchinha “Mamãe eu quero mamar”, que apesar de falar sobre um bebê com fome remetia à prática de apadrinhamentos políticos que geravam um enorme corpo administrativo de “mamadores do dinheiro público”.
            Apesar da Constituição de 1937 garantir liberdade de expressão a todos os cidadãos, era dever do estado combater qualquer instrumento que leve a sociedade brasileira a degeneração. Os centros espíritas e os terreiros afro-brasileiros faziam parte dessa missão de livrar a sociedade brasileira de todos os vícios nocivos a moralidade social. Terreiros eram fechados, pais-de-santo presos e estampados nas páginas dos jornais e os utensílios de culto retidos no Museu da Diretoria de Hygiene Mental e Serviço de Assisntencia a Psycopatas. Os líderes dos terreiros eram acusados de malandragem, representavam o ócio que não combinava com a modernidade. A mediunidade era diagnosticada pelos médicos como distúrbios da mente, ditos débeis mentais. As forças da polícia política de Agamenon Magalhães, da Secretaria de Segurança Pública, eram congregados marianos e
PRAÇA MACIEL PINHEIRO - RECIFE/PE
foram apelidados àquela época de “capangas de Deus”.  Os centros espíritas continuaram funcionando, mas sob as constantes visitas dos representantes da Assistência a Psycopatas de Pernambuco. Os intelectuais de Recife sempre escreviam trabalhos de afirmação étnica branca e portuguesa, outra matriz étnica não representava a brasilidade e deveriam sumir da memória popular era a afro-brasileira. No entanto, os terreiros da nova religião, separados do candomblé, a umbanda se multiplicava em Recife. Até foi realizado o Congresso Afro-brasileiro em 1934 na capital pernambucana, onde reuniram intelectuais de oposição às teorias racistas do Estado Novo. Entre esses estudiosos podiam ser encontrados médicos, psicólogos, antropólogos, sociólogos, educadores, escritores, artistas e representantes da Frente Negra Brasileira que davam outra interpretação para a formação da identidade brasileira que incluía a cultura negra. O Fôlha da Manhã era o porta-voz das ideias racistas da elite pernambucana e do governo estadonovista em Pernambuco, de onde vinham os vários ataques à cultura africana, dita inferior.

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