Na Itália fascista e na
Alemanha nazista o passado estava com os dias contados. A vergonha da história
recente dos dois países parecia incomodar os líderes das duas nações. Ambos
põem em prática um projeto futurista de modificação de suas capitais em todos
os âmbitos, principalmente o arquitetônico. O passado deveria dar lugar ao
futuro, a modernidade que salvava os alemães e italianos do atraso e da
vergonha. Aqui no Brasil o Estado Novo vem para apagar a história da República
Velha e inaugurar no país um projeto urbanístico para ficar para sempre na
história. Para isso o passado deveria ceder espaço para a modernidade. Em
Pernambuco a Interventoria Agamenon Magalhães prometia transformar Recife numa
adorável cópia da capital federal, o Rio de Janeiro. Quem nos empresta esses
interessantíssimos dados é a autora Maria das Graças Andrade Ataíde de Almeida,
no terceiro capítulo de sua obra “A Construção da Verdade Autoritária”.
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| PRAÇA DO MARCO ZERO DO RECIFE/PE |
Como
era de esperar, o jornal propagandista do Estado Novo em Pernambuco, o Fôlha da Manhã, ditava para a população
as normas civilizatórias da sociedade recifense que deveria ser levada a cabo porque
representavam a própria vontade do interventor. Não cansavam de noticiar as
obras megalomaníacas de Mussolini e Hittler na Europa, monumentos
principalmente, além dos arranha-céus que cortavam o horizonte de Berlim e
Roma. Representavam o presente do líder salvador para as futuras gerações, a
modernidade. O Rio de Janeiro era a grande musa inspiradora de Agamenon
Magalhães, deveria ser importada urgentemente para Recife. Várias obras foram
feitas na cidade na administração de Agamenon Magalhães, sempre deificada nas
colunas do Fôlha da Manhã,
apresentava a população o projeto de reurbanização da cidade do Recife. Os
becos, casaris e prédios antigos da parte velha do Recife deveriam ser
suplantados pelos mesmos arranha-céus que o Rio de Janeiro tinha, os becos e
casas antigas dariam lugar a ruas mais largas e espaçosas, praças para lazer da
elite foram construídas e empreendimentos comerciais e hoteleiros foram
executados em Recife. Era chique passar o fim da tarde nas confeitarias, ou
fazer festas nas dependências de hotéis luxuosos ou até frequentar os bailes
dos clubes da cidade, o Clube Internacional do Recife e o Clube Português.
Parecia que quanto mais se fazia para embelezar o Recife
mais coisas precisava se fazer. Isso foi levado tão a sério por Agamenon
Magalhães que uma rota turística foi elaborada pela Interventoria, onde firmava
com a força policial os pontos turísticos que deveriam ser visitados pelos
visitantes. Nada poderia sair do plano de turismo e, muito menos, ser
fotografado. Fotografar áreas que não eram permitidas pelo Interventor era crime
e fortemente controlado pelos policiais recifense. Tudo para mostrar aos
turistas o Recife que o interventor queria que se conhecesse, o Recife oficial
e não o Recife real.
A civilidade urbanística do Recife de nada adiantaria se
os recifenses não fossem civilizados, ou pelo menos, se os não-civilizados
fossem afastados das ruas da capital do estado. Para isso, o Fôlha da Manhã informava diariamente
sobre as regras de como se vestir para transitar nas ruas do Recife. As pessoas
eram coagidas de acordo com o que vestia e, principalmente, com o que calçava.
Chegou ao ponto de todos os transeuntes serem obrigados a usar sapatos. Pessoas
descalças e com roupas surradas destoavam com ar de modernidade e civilidade
que Agamenon Magalhães se comprometera estabelecer no Recife. Para isso, mais
uma vez as forças policiais agiam em nome do interventor enxotando para longes
dos ciclos de lazer e passeios do Recife os pobres, vendedores de todos os
tipos de quinquilharias, comidas e bichos, não podendo esquecer-nos dos "imundos
engraxates" que se amontoavam do lado de fora dos restaurantes, bares e
confeitarias do Recife. O que adiantaria ter confeitarias aos moldes carioca se
à porta dessas estavam cheios de engraxates sujos e descalços? A polícia sempre
foi ágil para limpar das vistas da elite recifenses esses tipos de pessoas que
poluíam as ruas da Veneza brasileira.
Outro problema antigo que precisava ser solucionado, ou
modernizado, eram as linhas de bonde. O próprio Fôlha da Manhã entoava análises preconceituosas contra os usuários
das linhas dos bairros populares como Várzea, Afogados e Campo Grande com suas
gentes tagarelas e sem educação, contrapondo-se as linhas de Casa Amarela, Dois
Irmãos, Olinda, Espinheiro e Boa Viagem que eram utilizados por gente de boa
educação, que conversavam aos sussurros e nunca carregavam
embrulhos. Para
Agamenon Magalhães os bondes era um típico exemplo de atraso que deveria ser
ultrapassado. Ruas foram calçadas com as técnicas mais modernas à época com a
nítida intenção de substituir os bondes pelos ônibus. Mas uma vez destacamos a
radicalidade dos governos que sucederam Agamenon Magalhães, enquanto os dois
tipos de transportes públicos dividiam as ruas do Rio de Janeiro na década de
1960, no Recife as linhas de bondes foram inteiramente substituídas pelo
transporte de passageiros típico da modernidade, os ônibus.
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| AVENIDA BOA VIAGEM - RECIFE/PE |
A modernidade estadonovista da Interventoria Agamenon
Magalhães em Pernambuco não podia aceitar algumas manifestações da cultura
popular que não seguisse a matriz da capital federal ou da Europa. É nesse
contexto que o frevo será bastante combatido pelo jornal Fôlha da Manhã em pregação a favor das festas embaladas pelas
bandas de jazz. Até o carnaval pernambucano passou por reformulações para
atender essa perspectiva elitista e moderna. Primeiro, o mesmo jornal atacava
veemente as festas de ruas ao ritmo do frevo, dito como verdadeiras
aglomerações de pessoas enlouquecidas e suadas, nada de civilidade há nessa
festa. O bom mesmo eram as festas carnavalescas do Clube Internacional do
Recife e do Clube Português que varavam a madrugada com pessoas fantasiadas, com
belos adereços e envolvidos pelas bandas de jazz que se alternavam no salão.
Essas festas nos clubes recifenses eram manchetes constantes no Fôlha da Manhã, enaltecendo a comedida
festividade povoada das "melhores gentes" do Recife.
O carnaval de rua na foi proibido pelo Interventor, no
entanto, a repressão aos desfiles e aos compositores era ferrenha. Nenhuma
marchinha deveria ser composta para criticar o regime do Estado Novo, muito
pelo contrário, as fantasias e as músicas deveriam enaltecer a pessoa do
presidente e do regime. Entretanto, os compositores sempre davam um jeito de burlar
a fiscalização optando pelas expressões dúbias, como a da marchinha “Mamãe eu
quero mamar”, que apesar de falar sobre um bebê com fome remetia à prática de
apadrinhamentos políticos que geravam um enorme corpo administrativo de
“mamadores do dinheiro público”.
Apesar da Constituição de 1937 garantir liberdade de
expressão a todos os cidadãos, era dever do estado combater qualquer
instrumento que leve a sociedade brasileira a degeneração. Os centros espíritas
e os terreiros afro-brasileiros faziam parte dessa missão de livrar a sociedade
brasileira de todos os vícios nocivos a moralidade social. Terreiros eram
fechados, pais-de-santo presos e estampados nas páginas dos jornais e os
utensílios de culto retidos no Museu da Diretoria de Hygiene Mental e Serviço
de Assisntencia a Psycopatas. Os líderes dos terreiros eram acusados de
malandragem, representavam o ócio que não combinava com a modernidade. A
mediunidade era diagnosticada pelos médicos como distúrbios da mente, ditos
débeis mentais. As forças da polícia política de Agamenon Magalhães, da
Secretaria de Segurança Pública, eram congregados marianos e![]() |
| PRAÇA MACIEL PINHEIRO - RECIFE/PE |



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