Uma curiosidade que me chamou
bastante atenção e que nos é bastante importante para a reflexão que se segue
vem de onde surgiu a vacina. Isso está escrito no terceiro capítulo da obra de
Sidney Chalhoub, “Cidade febril – Cortiços e Epidemias na Corte Imperial. Vale
ressaltar primeiro que se a tuberculose fazia vítimas de todas as classes e
etnias e que a febre amarela dizimava uns montes imigrantes europeus, a varíola
era mortal às pessoas de cor e os negros. Há uma relação paradoxal na atuação
dos médicos higienistas no Brasil durante todo o século XIX, relação essa que
direcionava as políticas públicas acerca da saúde na Corte do Rio de Janeiro e
em outros centros urbanos brasileiros.
As grandes ações de políticas
públicas no Brasil, mas precisamente na Corte imperial, contra surtos
epidêmicos foram bastante enérgicos quando se fala de febre amarela. Tinha uma
razão política, os negros passavam fortes pelas epidemias de febre amarela
enquanto os portugueses que chegavam aos montes para assumir os postos de
trabalhados deixados por negros alforriados ou mortos, principalmente a partir
da proibição do comércio de escravos entre África e Brasil, eram fáceis presas
diante da doença. A abolição da escravidão no Brasil parecia estar chegando ao
fim, pelo menos em sua forma legal, com as consecutivas leis abolicionistas. Os
brancos europeus que imigravam para o Brasil reocupavam as vagas no germe da
indústria brasileira e nas lavouras interior a dentro. Não apenas isso, muitos representantes
políticos do século XIX, acreditavam que a febre amarela atrapalhava o natural
meio de purificação da “cor nacional”, ou seja, o embranquecimento da população
brasileira. A miscigenação entre europeus e brasileiros iria acabar
paulatinamente com o passado africano no Brasil. Por isso, era emergencial
combater a febre amarela do que a tuberculose, por exemplo, pois essa atacava
mais a pessoas de cor e negros do que os brancos.
Em um grau bem mais elevado de
vítimas pardas e negras fazia a varíola em comparação com a tuberculose. Como
disse antes, a relação entre políticas públicas de saúde e negros no Brasil
funcionava de forma paradoxal. Paradoxalmente porque enquanto os europeus eram
preciosos para a inserção de uma vez por toda do Brasil no mundo civilizado no
Ocidente, outros defendiam que os negros e pessoas de cor eram importante fonte
de mão-de-obra para o país ainda. Enquanto a abolição não chegava o braço negro
sustentava a economia brasileira. Apesar de o comércio de escravos ter sido
proibido, não quer dizer que tenha sido extinto, mesmo tendo que concordar que
os números de importação de escravos para cá diminuíram bastante na segunda
metade do século XIX. No entanto, outra solução foi arranjada, o comércio de
escravo interprovincial foi adotado, onde vários escravos foram deslocados do Nordeste para
atuarem no trabalho braçal em São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. A quantidade de negros e pessoas de cor era bastante alta na Corte
imperial, mesmo depois do fim do comércio escravista intercontinetal. Isso, na prática,
representou um problema para a administração pública, pois não havia no Rio uma
demanda suficientemente eficaz para acomodar tantas pessoas assim. Vários
estabelecimentos comerciais improvisaram quartinhos nos fundos e inúmeros
cortiços foram construídos para o pesadelo dos órgãos de higiene pública.
Apesar de ser importante para
economia manter os negros longe de focos epidêmicos, também era importante
manter a saúde dos europeus fixos no Brasil ou de passagem. Duas medidas
diferentes foram tomadas pela administração pública na capital federal. A
primeira era executar um plano de expulsão dos negros, pardos e brancos pobres
para longe do centro do Rio e para isso era preciso demolir os incontáveis
cortiços que existiam na Corte. Com isso, a intenção era livrar o centro da
capital dos "estabelecimentos imundos e insaneáveis propagadores de epidemias" que rápido se espalhava pela cidade. A Segunda era controlar os surtos de
varíolas entre os negros e pessoas de cor, evitando prejuízos econômicos aos
seus donos ou empregadores. Para isso, os médicos higienistas optaram, de início,
pela técnica da variolização, ou seja, na injeção do pus da varíola em pessoas
sãs com o objetivo de combater a doença com a própria doença. Essa prática não
era apenas executada por médicos, mas também por curandeiros e líderes
espirituais da crença popular. Como tal técnica não comprovava a eficácia do
resultado, os médicos abandonaram-na ficando relegada aos sábios populares.
Os médicos optaram pela técnica
novíssima ainda na primeira metade do século XIX criado pelo médico Jenner,
chamado de vacina. Primeiro, vacina é o nome de uma doença comum em vacas e
através da observação, o tal doutor percebeu que pessoas que ingeriam o leite
contendo o vírus da vacina não contraíam, ou reduzia o número de infectados
pela varíola, mesmo que este estivesse no turbilhão de uma epidemia em sua
comunidade. Jenner passou a extrair das tetas das vacas esse vírus para fazer
testes em pessoas sãs e, pelos relatórios, os resultados foram animadores. A
vacina (doença comum em vacas) era injetada em pessoas que não tinham contraído
a varíola e depois de oito dias o pus da ferida causada pela injeção da
substância era retirada e imediatamente injetada em outra pessoa. Essa técnica
ficou conhecida com “vacina braço a braço”. Essa descoberta foi publicada em
periódicos científicos na Inglaterra e a técnica foi exportada para outros
países europeus e para suas colônias. Na própria corte imperial no Rio de
Janeiro havia médico especializado na técnica de vacinação braço a braço pronto
para aplicar na população negra e parda.
O próprio imperador pareceu disposto
a lançar as bases para que a técnica fosse implementada no Brasil, lógico que
principalmente na Corte imperial, mas isso tem uma explicação, logo depois da morte de
estimado integrante da família real pela varíola despertou o interesse do imperador pelas descobertas. Os médicos estavam a postos
para executar a vacinação contra varíola em todas as partes da Corte.
Entretanto, a missão não foi tão fácil assim, pois a resistência era
tamanha
que até acarretava em fugas nos períodos de aplicação da vacina. Além disso, os
vereadores não davam a devida atenção a causa e não acatava as reivindicações
da Junta de Higiene. O presidente da junta, o barão de Lavradio, pressionava os
vereadores a aprovar cobranças de multas para quem se negasse a comparecer a vacinação. Os
parlamentares até aprovaram, mas não faziam cumprir a determinação como
esperava o barão. A multa, de início, era de 10 mil réis para quem não
vacinasse seus filhos ou sua família. A determinação não parava aí, os
vacinados teriam que voltar oito dias depois da vacinação para a retirada do pus
e a aplicação em outra pessoa, sendo que caso não comparecesse, uma nova multa
era cobrada no valor de 6 mil réis. Ainda não deu certo. Isso porque os
vereadores não pressionavam os intendentes da polícia a agir com a força
necessária para garantir tanto a primeira ida quanto a volta ao posto de
vacinação. Muitos que iam tomar a vacina pela primeira vez ou levar sua família
davam o endereço errado para dificultar a ação da Junta de Higiene e da
polícia, livrando-se do doloroso retorno e da multa em dinheiro.
Outro fator impediu que a vacinação
atingisse seus objetivos, a religião. Como disse antes, a variolização
continuou sendo praticada por curandeiros nos subúrbios das grandes cidades do
Brasil. Essa prática passou a ser proibida e sua realização estava passiva de
punição para quem insistisse desrespeitar a determinação. Mais um fator paradoxo nesse
caso. A população rejeitava a vacinação por acreditar que a doença deveria
seguir o fluxo normal de sua existência, como ela veio e ela se vai. Isso foi
dito por milhares de pessoas em conversas com os médicos vacinadores. Mas
grande parte desses procuravam os curandeiros em busca da cura a partir do
método da variolização. No sincretismo afro católico, São Sebastião e Amolu
davam sustentação religiosa para tal resistência. São Sebastião é um santo negro e
não participou da tradional procissão entre a quarta-feira de cinza e a
quaresma, por não ter quem quisesse levá-lo. Os brancos diziam que não
carregariam um negro nas costas, mesmo sendo santo. As beatas, anos depois, afirmavam
categoricamente que o surto de varíola caiu sobre o Rio de Janeiro por castigo do
santo renegado. Quais as bases para tal afirmação? É que muitos braços nesse
ano contraíram a “doença dos pretos”, a varíola. Só ele então poderia acabar
com a epidemia, então não era da competência média encurtar o castigo do santo.
No candomblé, Omulu é o orixá das chagas e da varíola. É ele quem dá a doença e
só ele pode tirá-la. Tentar a cura sem ser por meios ritualísticos à Omulu
acenderia a ira do orixá que intensificaria a praga com mais ímpeto.
Paradoxalmente, a população negava-se ser vacinada para não provocar a cólera
dos seres sagrados, mas buscava nos curandeiros a cura.
Por último, outros médicos no
exterior publicavam em periódicos médicos suas críticas teoricamente
fundamentadas em observações e em dados estatísticos que o método de vacinação
com a substância retirada das vacas doentes não traria benefícios para a saúde,
pelo contrário, levaria os vacinados a contrair a varíola. Logo esses estudos
se espalharam pela Europa e outros continentes levando a população menos
esclarecida à aversão a técnica de vacinação. Estava fortemente enraizado na
população mais pobre que tomar a vacina levaria os vacinados a passar por
processos de mutação e adquiriram no lugar do rosto humano as feições de vacas e mugidos no lugar da voz. Tudo isso dificultava a vida dos médicos
vacinadores.


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