terça-feira, 14 de junho de 2016

VACA, NEGROS E VARÍOLA - MÉTODOS VACÍNICOS NA CORTE IMPERIAL


           
Uma curiosidade que me chamou bastante atenção e que nos é bastante importante para a reflexão que se segue vem de onde surgiu a vacina. Isso está escrito no terceiro capítulo da obra de Sidney Chalhoub, “Cidade febril – Cortiços e Epidemias na Corte Imperial. Vale ressaltar primeiro que se a tuberculose fazia vítimas de todas as classes e etnias e que a febre amarela dizimava uns montes imigrantes europeus, a varíola era mortal às pessoas de cor e os negros. Há uma relação paradoxal na atuação dos médicos higienistas no Brasil durante todo o século XIX, relação essa que direcionava as políticas públicas acerca da saúde na Corte do Rio de Janeiro e em outros centros urbanos brasileiros.
            As grandes ações de políticas públicas no Brasil, mas precisamente na Corte imperial, contra surtos epidêmicos foram bastante enérgicos quando se fala de febre amarela. Tinha uma razão política, os negros passavam fortes pelas epidemias de febre amarela enquanto os portugueses que chegavam aos montes para assumir os postos de trabalhados deixados por negros alforriados ou mortos, principalmente a partir da proibição do comércio de escravos entre África e Brasil, eram fáceis presas diante da doença. A abolição da escravidão no Brasil parecia estar chegando ao fim, pelo menos em sua forma legal, com as consecutivas leis abolicionistas. Os brancos europeus que imigravam para o Brasil reocupavam as vagas no germe da indústria brasileira e nas lavouras interior a dentro.  Não apenas isso, muitos representantes políticos do século XIX, acreditavam que a febre amarela atrapalhava o natural meio de purificação da “cor nacional”, ou seja, o embranquecimento da população brasileira. A miscigenação entre europeus e brasileiros iria acabar paulatinamente com o passado africano no Brasil. Por isso, era emergencial combater a febre amarela do que a tuberculose, por exemplo, pois essa atacava mais a pessoas de cor e negros do que os brancos.
            Em um grau bem mais elevado de vítimas pardas e negras fazia a varíola em comparação com a tuberculose. Como disse antes, a relação entre políticas públicas de saúde e negros no Brasil funcionava de forma paradoxal. Paradoxalmente porque enquanto os europeus eram preciosos para a inserção de uma vez por toda do Brasil no mundo civilizado no Ocidente, outros defendiam que os negros e pessoas de cor eram importante fonte de mão-de-obra para o país ainda. Enquanto a abolição não chegava o braço negro sustentava a economia brasileira. Apesar de o comércio de escravos ter sido proibido, não quer dizer que tenha sido extinto, mesmo tendo que concordar que os números de importação de escravos para cá diminuíram bastante na segunda metade do século XIX. No entanto, outra solução foi arranjada, o comércio de escravo interprovincial foi adotado, onde vários escravos foram deslocados do Nordeste para atuarem no trabalho braçal em São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. A quantidade de negros e pessoas de cor era bastante alta na Corte imperial, mesmo depois do fim do comércio escravista intercontinetal. Isso, na prática, representou um problema para a administração pública, pois não havia no Rio uma demanda suficientemente eficaz para acomodar tantas pessoas assim. Vários estabelecimentos comerciais improvisaram quartinhos nos fundos e inúmeros cortiços foram construídos para o pesadelo dos órgãos de higiene pública.
            Apesar de ser importante para economia manter os negros longe de focos epidêmicos, também era importante manter a saúde dos europeus fixos no Brasil ou de passagem. Duas medidas diferentes foram tomadas pela administração pública na capital federal. A primeira era executar um plano de expulsão dos negros, pardos e brancos pobres para longe do centro do Rio e para isso era preciso demolir os incontáveis cortiços que existiam na Corte. Com isso, a intenção era livrar o centro da capital dos "estabelecimentos imundos e insaneáveis propagadores de epidemias" que rápido se espalhava pela cidade. A Segunda era controlar os surtos de varíolas entre os negros e pessoas de cor, evitando prejuízos econômicos aos seus donos ou empregadores. Para isso, os médicos higienistas optaram, de início, pela técnica da variolização, ou seja, na injeção do pus da varíola em pessoas sãs com o objetivo de combater a doença com a própria doença. Essa prática não era apenas executada por médicos, mas também por curandeiros e líderes espirituais da crença popular. Como tal técnica não comprovava a eficácia do resultado, os médicos abandonaram-na ficando relegada aos sábios populares.
            Os médicos optaram pela técnica novíssima ainda na primeira metade do século XIX criado pelo médico Jenner, chamado de vacina. Primeiro, vacina é o nome de uma doença comum em vacas e através da observação, o tal doutor percebeu que pessoas que ingeriam o leite contendo o vírus da vacina não contraíam, ou reduzia o número de infectados pela varíola, mesmo que este estivesse no turbilhão de uma epidemia em sua comunidade. Jenner passou a extrair das tetas das vacas esse vírus para fazer testes em pessoas sãs e, pelos relatórios, os resultados foram animadores. A vacina (doença comum em vacas) era injetada em pessoas que não tinham contraído a varíola e depois de oito dias o pus da ferida causada pela injeção da substância era retirada e imediatamente injetada em outra pessoa. Essa técnica ficou conhecida com “vacina braço a braço”. Essa descoberta foi publicada em periódicos científicos na Inglaterra e a técnica foi exportada para outros países europeus e para suas colônias. Na própria corte imperial no Rio de Janeiro havia médico especializado na técnica de vacinação braço a braço pronto para aplicar na população negra e parda.
            O próprio imperador pareceu disposto a lançar as bases para que a técnica fosse implementada no Brasil, lógico que principalmente na Corte imperial, mas isso tem uma explicação, logo depois da morte de estimado integrante da família real pela varíola despertou o interesse do imperador pelas descobertas. Os médicos estavam a postos para executar a vacinação contra varíola em todas as partes da Corte. Entretanto, a missão não foi tão fácil assim, pois a resistência era
tamanha que até acarretava em fugas nos períodos de aplicação da vacina. Além disso, os vereadores não davam a devida atenção a causa e não acatava as reivindicações da Junta de Higiene. O presidente da junta, o barão de Lavradio, pressionava os vereadores a aprovar cobranças de multas para quem se negasse a comparecer a vacinação. Os parlamentares até aprovaram, mas não faziam cumprir a determinação como esperava o barão. A multa, de início, era de 10 mil réis para quem não vacinasse seus filhos ou sua família. A determinação não parava aí, os vacinados teriam que voltar oito dias depois da vacinação para a retirada do pus e a aplicação em outra pessoa, sendo que caso não comparecesse, uma nova multa era cobrada no valor de 6 mil réis. Ainda não deu certo. Isso porque os vereadores não pressionavam os intendentes da polícia a agir com a força necessária para garantir tanto a primeira ida quanto a volta ao posto de vacinação. Muitos que iam tomar a vacina pela primeira vez ou levar sua família davam o endereço errado para dificultar a ação da Junta de Higiene e da polícia, livrando-se do doloroso retorno e da multa em dinheiro.
            Outro fator impediu que a vacinação atingisse seus objetivos, a religião. Como disse antes, a variolização continuou sendo praticada por curandeiros nos subúrbios das grandes cidades do Brasil. Essa prática passou a ser proibida e sua realização estava passiva de punição para quem insistisse desrespeitar a determinação. Mais um fator paradoxo nesse caso. A população rejeitava a vacinação por acreditar que a doença deveria seguir o fluxo normal de sua existência, como ela veio e ela se vai. Isso foi dito por milhares de pessoas em conversas com os médicos vacinadores. Mas grande parte desses procuravam os curandeiros em busca da cura a partir do método da variolização. No sincretismo afro católico, São Sebastião e Amolu davam sustentação religiosa para tal resistência. São Sebastião é um santo negro e não participou da tradional procissão entre a quarta-feira de cinza e a quaresma, por não ter quem quisesse levá-lo. Os brancos diziam que não carregariam um negro nas costas, mesmo sendo santo. As beatas, anos depois, afirmavam categoricamente que o surto de varíola caiu sobre o Rio de Janeiro por castigo do santo renegado. Quais as bases para tal afirmação? É que muitos braços nesse ano contraíram a “doença dos pretos”, a varíola. Só ele então poderia acabar com a epidemia, então não era da competência média encurtar o castigo do santo. No candomblé, Omulu é o orixá das chagas e da varíola. É ele quem dá a doença e só ele pode tirá-la. Tentar a cura sem ser por meios ritualísticos à Omulu acenderia a ira do orixá que intensificaria a praga com mais ímpeto. Paradoxalmente, a população negava-se ser vacinada para não provocar a cólera dos seres sagrados, mas buscava nos curandeiros a cura.
            Por último, outros médicos no exterior publicavam em periódicos médicos suas críticas teoricamente fundamentadas em observações e em dados estatísticos que o método de vacinação com a substância retirada das vacas doentes não traria benefícios para a saúde, pelo contrário, levaria os vacinados a contrair a varíola. Logo esses estudos se espalharam pela Europa e outros continentes levando a população menos esclarecida à aversão a técnica de vacinação. Estava fortemente enraizado na população mais pobre que tomar a vacina levaria os vacinados a passar por processos de mutação e adquiriram no lugar do rosto humano as feições de vacas e mugidos no lugar da voz. Tudo isso dificultava a vida dos médicos vacinadores. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário