quinta-feira, 9 de junho de 2016

FEBRE AMARELA E TUBERCULOSE: QUESTÕES ÉTNICAS DE HIGIENE NO BRASIL IMPÉRIO

           
             No segundo capitulo da obra de Sidney Chalhoub, “Cidade Febril – Cortiços e Epidemias na Corte Imperial” se pontuam a diferença da ação pública contra a febre amarela e a tuberculose no Rio de Janeiro, assim como as reais intenções dos governos ao combate de epidemias do “vômito preto” que assolou a capital federal durante a segunda metade do século XIX.
            Primeiro é importante apontar as duas fases críticas da epidemia da febre amarela no Rio de janeiro, uma na década de 1840 e outra a partir da década de 1860 até os dias da Revolta da Vacina no século XX. No entanto, podemos observar que entre as duas fases críticas do desenvolvimento da epidemia na sede da Corte imperial registra-se um período de bonança, a década de 1850. É importante termos esses dois momentos históricos bem definidos, pois em ambos os períodos os médicos higienistas deram diagnósticos diferentes com relação aos surtos de febre amarela.
            Segundo, vale salientar que a febre amarela não era a doença que mais matava no Rio de janeiro naquela época, já a tuberculose, por exemplo, era uma enfermidade que dizimava tanto brancos e pessoas de cor, quanto a pobres e ricos. Existe um real motivo para que a febre amarela tenha sido mais combatida pelos governos central, provinciano e municipal. A questão que se desenvolve é mais étnica e política do que propriamente uma preocupação de saúde pública. Enquanto a tuberculose era mais comum entre as pessoas de cor ou negros, a febre amarela arrasava a população que imigrara da Europa para Rio de Janeiro. Outro fator soma-se aos citados a cima, a questão do trabalho. A partir da segunda metade do século XIX as questões abolicionistas ficavam cada vez mais evidentes, inclusive com pressões da Inglaterra. Durante a década de 1840, uma grande quantidade de escravos africanos desembarcou no Brasil, a última grande remeça vinda da África, daí para frente os números começam a cair. Em contrapartida, outra estatística cresce, a dos imigrantes europeus, principalmente portugueses, italianos e alemães. Parece-nos que os latifundiários já estavam prevendo a abolição da escravidão e já se movimentavam para a lenta troca de mão-de-obra para suas lavouras. Lembramos que a Inglaterra não parava de pressionar o governo imperial pelo fim do comércio de escravos africanos para o Brasil.
            Na primeira fase crítica da epidemia de febre amarela os médicos dividiram-se em duas propostas de explicação da doença defendendo que a mesma se propagava ou por contágio ou infecção. Podemos ver nos textos acadêmicos dos médicos higienistas e dos parlamentares em todos os níveis da política o dramático resultado da epidemia. Os deputados discursavam na plenária afirmando que tudo era resultado da imoralidade do povo carioca, por isso estavam sendo castigados por Deus. Já outros culpavam os escravos por trazerem essas moléstias consigo da África. Independente da opinião, percebemos que o resultado da doença levou as esferas da administração pública carioca a se pronunciar. O resultado que estamos falando é uma grande quantidade de mortes por causa do “vômito preto”, tanto as de 1846 quanto as de 1847 chegavam por volta de sete mil mortos, segundo os números oficiais, entretanto, o que se falava eram números bem maiores, entre 10 a 15 mil mortos. 
            No surto da década de 1840 a predominante explicação do reaparecimento da doença na Corte imperial era, sem dúvidas, a do comércio de escravos africanos para o Brasil. Levando em consideração que a doença se propagava em cidades portuárias no Brasil e no mundo, os médicos e parlamentares acirravam seus discursos contra os negros que lotavam as cidades brasileiras. Rio de Janeiro e Salvador sofriam constantemente com as epidemias de verão da febre amarela, como as cidades portuárias das ex-províncias sulistas e escravocratas dos Estados Unidos. Além do mais, os médicos perceberam que enquanto a febre amarela matava muitos brancos, europeus e brasileiros vindos de outras partes, os africanos quando adoeciam, não passavam pelos sofrimentos mortais desses. Isso fez com que várias teorias médicas racistas fossem desenvolvidas pelos médicos que debatiam ferozmente nos ambientes acadêmicos e políticos. Já outros, mais amenos, não atribuíam a doença à “raça negra”, mas as condições a que eram submetidos os escravos nos navios tumbeiros na travessia entre a África e o Brasil. Segundo esses, não eram os africanos o motivo da doença, mas as péssimas condições de higiene dos navios que ancoravam no porto da capital do Brasil.
           
            Não eram todos os médicos de inclinação à uma ideologia médica racista, mas podemos citar dois que caminhava na contramão desse caminho, o professor de Higiene e história da Medicina da Faculdade de Medicina do Rio Janeiro, o Dr. Thomaz Gomes dos Santos que defendia as razões históricas sobre a propagação da febre amarela no Brasil e não razões étnicas ou de ideologia xenofóbica de que os povos que habitavam os trópicos por não serem inclinados naturalmente para a civilização estavam propícios à essas moléstias típicas das culturas inferiores. Outro médico em destaque que repudiava as explicações racistas, o Dr. João Vicente Torres Homem defendia que qualquer europeu poderia viver no Brasil sem ser acometido pela febre amarela como qualquer brasileiro ou africano se as condições de higiene dos centros urbanos respeitassem regras mais rigorosas de higiene pública e que nada tinha a ver a questão do clima dos trópicos com a propagação da epidemia entre os imigrantes vindos da Europa. Para ambos, a febre amarela não poderia ser explicada por teses étnicas ou geográficas, mas sim a partir da higiene pública das cidades brasileiras.
            Na segunda fase crítica da epidemia de febre amarela no Rio de Janeiro, na década de 1860 em diante, os médicos higienistas não discordavam que a doença já tinha se instalada no seio da cidade carioca. Os navios negreiros não eram mais vistos aos montes no porto do Rio como em décadas passadas, pelo contrário, a grande "invasão" estrangeira continuava sendo os imigrantes europeus para atuarem nas lavouras da província e em outras atividades. Entretanto, a doença do “vômito preto” continuou a fazer suas maiores vítimas entre os europeus e os brasileiros vindos de outras áreas. Enquanto a tuberculose matava aos muitos as pessoas de cor e os escravos. Duas razões foram diagnosticadas: a primeira que as condições de higiene da cidade do Rio de Janeiro eram precárias e contribuíam para o avanço da epidemia nos períodos de verão, inclusive acerca de uma obra de saneamento básico mal realizada pela empresa inglesa City Improviment espalhava poças de dejetos a céu aberto por causa de constantes vazamentos nos canos dos esgotos, sem contar nos pântanos imundo e carcaças de animais mortos pelas ruas; a segunda era a enorme quantidade de cortiços espalhados pelo centro da capital federal e suas péssimas condições de higiene, onde europeus pobres e pessoas de cor se amontoavam em pequenos vãos sem a mínima condição higiênica para se viver bem.
            Quando o governo central optou por ceder as pressões inglesas sobre o fim do comércio de escravos africanos para o Brasil, concretizada em 1850 com assinatura da lei Eusébio de Queiroz, tanto o governo quanto os barões de café e grandes produtores de outras culturas não estavam tão preocupados com o “fim do envio de escravos” (pelo menos na teoria) para o Brasil, isso porque a quantidade de escravos era grande no país e, como falei anteriormente, uma década anterior, foi intensificada o translado das últimas grandes remessas desses para cá. Então o país estava abastardo de mão-de-obra africana. O plano agora era outro, até porque o mundo vivia outros tempos e o Brasil precisava ser inserido no mundo industrial. O incentivo à imigração européia visava abastecer os postos de trabalho assalariado no Brasil a baixíssimo custo, principalmente com a assinatura da lei do Ventre Livre, em 1871, que declarava livre os filhos das escravas. Paulatinamente, a escravidão era sacudida, porém se a escravidão acabasse ainda restariam os negros e sua cultura africana. A grande e constante leva de europeus no Brasil se deu, tanto para fins de mercado, quanto para o embranquecimento da “raça brasileira”, para varrer definitivamente a cor negra e suas heranças do Brasil. Precisava-se civilizar o Império e para isso a cor branca precisa ser predominante entre a população. Daí a febre amarela ser encarada como questão de saúde pública e não outras doenças comuns as pessoas de cor e mais pobres como a varíola e a temida tuberculose. A própria doença, ao que parece, servia como uma ferramenta de purificação racial, ao passo que enfermidades que colocasse em perigo a integridade da população branca era veementemente combatidas.
Por fim, os cortiços e estalagens além de atrair esse tipo de classe perigosa para o centro da capital do Brasil também geravam vários tipos de imundícies por falta de higiene, levando as autoridades a implementar um amplo plano de despejos e demolições dos cortiços para abrir ruas mais largas e melhorar a ventilação da cidade do Rio, bem como ampliar as áreas de investimentos para o empresariado imobiliário. Enfim, as políticas públicas de combate a epidemias levavam em considerações questões étnicas e de renda em prol de um modelo civilizatório da sociedade brasileira na virada do século XIX para o XX.

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