segunda-feira, 6 de junho de 2016

CORTIÇOS E ESTALAGENS - ANTROS CONTRA A MORAL E OS BONS COSTUMES

         
        Esse texto é referente ao primeiro capítulo da obra de Sidney Chalhoub “Cidade Febril – cortiços e epidemias na corte imperial”. O objetivo é apresentar, de forma sintética, as principais ideias do autor acerca das motivações políticas e sanitárias das demolições dos habitacionais populares no centro do Rio de Janeiro, desde o início do reinado de D. Pedro II ao governo do segundo presidente da República do Brasil, Floriano Peixoto.
          Primeiro vale ressaltar que as sucessivas leis abolicionistas que se sucederam no século XIX apresentaram os ares de libertação escrava que culminaria em 1888 na Lei Área, mesmo que esses ares não fossem claros para a grande massa. O fato é que nesse período o número das alforrias aumentou e, outro fato por muitos desconhecidos, a tendência de vários escravos viverem por si mesmo na cidade do Rio após os horários de trabalho que deveriam cumprir para seu senhor. Muitos senhores, com a intenção de livrar-se dos gastos fixos com alimentação, por exemplo, davam aos seus escravos a opção de viver por si depois dos expedientes servis, sendo de responsabilidade desses arrumar um lugar para dormir, suas refeições e quaisquer outros gastos que antes pertenciam aos senhores. Passou a ser comum, o expediente extra ou trabalhos domésticos sendo esses escravos contratados nos períodos após o expediente servil, como costurar, lavar ou passar roupas de outrem, ou ainda cozinhar, dentre outros serviços que lhe garantissem uma renda mínima para viverem por si próprio.
          Nesse contexto, a cidade do Rio de Janeiro parece não ter suportado a grande demanda da população urbana a que passou a contar no decorrer da segunda metade do século XIX. A questão habitacional tornou-se um problema de segurança e saúde pública. Diversos cortiços e estalagens se multiplicaram pelo Rio de Janeiro, com baixos preços de alugueis comparados as outras alternativas de habitação disponíveis, no entanto, com péssimas condições de higiene, segurança e ventilação. Eram constantes as epidemias de febre amarela, varíola, tuberculose e etc, que eram acometidos os moradores desses complexos habitacionais.
          Não é difícil entender a relação entre as políticas higienicistas com as alternativas de investimentos capitalistas diante da expansão imobiliária no centro do Rio de Janeiro. Vários departamentos do governo central, seja do império ou da república, foram importantes para a tentativa de resolução do impasse referente aos cortiços na capital federal. Enquanto os cortiços e estalagens ocupavam lugares centrais do Rio de Janeiro, a elite articulava-se para pôr ao chão os antros imorais que atrapalhavam a expansão imobiliária e as alternativas de lucro ao empresariado carioca. Outro fator em questão ao tema é a política. Muitos vereadores cariocas eram os representantes desse empresariado famintos por áreas valorizadas onde pudessem construir seus imóveis caros para outro tipo de clientela, quando não era, os próprios empresários, parte dos vereadores que votavam as propostas para fundamentar suas pretensões capitalistas de investimentos. Os presidentes dos vereadores do Rio de Janeiro, ora ou outra, acumulavam ou revezavam as atribuições políticas na casa legislativa municipal e na presidência da Junta Central de Higiene, no império, ou Inspetoria de Higiene, na república. A partir da década de 1870, os prefeitos passam a ser indicados para assumir o poder da capital federal, onde também, já tinha presidido a Junta de Higiene ou assumiriam após acabar o mandato na prefeitura do Rio de Janeiro.
          Com o fim da escravidão e a imigração européia ao Brasil, um plano racial se arquiteta, a mestiçagem com os europeus torna-se um método natural de clareamento da população. É visível no constatar dos documentos     e das propostas de leis aprovadas pelos vereadores cariocas que a questão além de ser política, econômica e de saúde pública, era étnica, pois existia um inimigo a ser combatido. Pelo menos um inimigo para as elites cariocas, os pobres, pessoas de cor - escravos (ex-escravos) e pardos, profissionais subalternos, etc. Esses eram tidos como classe perigosa. Perigosa por serem culpados de proliferarem doenças mortais as populações que viviam próximas aos cortiços (população rica, a propósito). Esses moradores de cortiços ocupavam os cargos mais rebaixados na opinião das elites cariocas. Eram prostitutas, operários, costureiras, cozinheiras, lavadeiras, escravos, dentre outros. Esses precisavam ser varridos dos centros da capital carioca, abrindo novos espaços de investimentos, liberando a cidade de epidemias e acabando com as hospedagens imundas que maltratavam a capital do Brasil. Pelo menos era como essas elites defendiam.
          Além de tudo, esses cortiços também serviam para acobertar escravos fugidos e como concentração de "desordeiros, imorais e perigosos para as pessoas de boa reputação". Vários documentos da época imperial adjetivavamm esses moradores dos cortiços como “pessoas inclinadas aos mais variados vícios”. Vícios esses que representavam um perigo para os padrões morais dos habitantes do Rio de Janeiro e, por isso também, deveriam ser combatidas.  Os vários motivos aqui já citados são somados ao interesse de ver os pobres e pessoas de cor longe das habitações do centro do Rio, sendo enxotados para as encostas dos morros no subúrbio da capital federal. Mas um subúrbio bem distante, para além das chácaras que rodeavam a cidade do Rio de Janeiro. Essas chácaras passaram ser compradas pelos mesmos empresários imobiliários, loteando-os e construindo habitacionais para pessoas de posses que quisesse morar mais afastado do centro, mas que pudesse contar também com a expansão das linhas dos bondes. Então, os moradores dos cortiços, à medida que eram despejados, eram expulsos para as áreas mais distantes dos locais onde o capital de investimento imobiliário se interessasse em expandir-se.
          As boas intenções (podemos até desconfiar dessas) de dar um novo lar para os moradores despejados dos cortiços não passaram de propostas indeferidas na casa legislativa municipal. Uma das propostas veio de um dos burocratas do Ministério do Império que previa o financiamento estatal para construção de novos habitacionais, como as devidas preocupações de higiene tomadas, mas longe dos centros cariocas. Esses novos habitacionais seriam alugados com preços bem abaixo dos cobrados na capital federal. Mas não passou de proposta, foi negada e arquivada. O caminho foi a rua e os motins contra os delegados de polícia, políticos municipais e representantes da Junta Central de Higiene.
          Aqui vale uma observação sobre o poder que representou a Junta Central de Higiene para a “resolução” dos casos de epidemias e da proliferação dos cortiços e estalagens no Rio de Janeiro durante o reinado de D. Pedro II. A partir da década de 1840 quaisquer propostas de construção de novos cortiços só poderiam acontecer se houvesse a devida autorização legal dos vereadores do Rio de Janeiro.  Não apenas isso, antes de aprovar ou reprovar a construção de um cortiço, a Junta de Higiene deveria aprovar o projeto. Quando um cortiço estava no alvo do poder público para ser decidido seu fechamento ou não, dois delegados e um representante da Junta faziam a perícia para indicar se o imóvel serviria para ser restaurado em tempo hábil ou deveria ser interditado e demolido. Com essa prática de ter o poder de decisão por autorizar ou desautorizar a construção ou desapropriação dos cortiços existentes no Rio, a Junta Central de Higiene passou a exercer forte poder sobre as questões sanitárias e imobiliárias da capital do Brasil. Seu poder passou a ser tanto que o ministro do Império passou a dar plenos poderes ao presidente da Junta em seu nome para executar suas decisões. Lembrando que muitos presidentes já tinham sido vereadores e prefeitos ou estavam de olho nesses cargos, então nada se construía ou se demolia sem o aval da Junta. Para se fazer respeitar, os presidentes da Junta, prefeitos e presidente dos vereadores tinham como aliados os delegados de polícia que faziam cumprir, muitas vezes pela força, a decisão judicial.
          Em suma, as condições de higiene dos cortiços do Rio de Janeiro era um problema de saúde pública. Os cortiços não tinham a mínima estrutura sanitária para funcionar, pelo menos a grande maioria deles. Apesar das grandes preocupações serem a febre amarela e varíola, por serem doenças típicas de pessoas de cor, era a tuberculose que mais fazia vítimas no Rio de Janeiro. No entanto, a tuberculose era uma doença que existia em países europeus desenvolvidos, como a França, por exemplo. Já as demais citadas eram doenças trazidas por estrangeiros dos trópicos em estadia nas terras francesas, havendo uma espécie de justificativa plausível para se tolerar a tuberculose em detrimentos a outras doenças. O constante plano de tornar a capital federal do Brasil numa réplica das cidades européias também seguia a questão de higiene e saúde pública. Para limpar o Rio de Janeiro dessas moléstias, era preciso afastar essa classe perigosa que além de tumultuar a sociedade carioca com seus vícios imorais eram responsáveis por disseminar essas pragas ao resto da população do Rio de Janeiro. Deveriam ser combatidos.

          Essa introdução histórica é uma reconstrução de quase cem anos antes da Revolta da Vacina que ocorreu durante o governo de Floriano Peixoto. Quando estudamos esse evento histórico no mandato do segundo presidente da república do Brasil, não reconstruímos esse passado histórico referente às questões sanitárias e habitacionais que passavam, não só o Rio de Janeiro, mas também os principais centros urbanos brasileiros na virada do século XIX para o século XX. Houve um intenso processo histórico-social para que no episódio da vacina contra a febre amarela no primeiro quartel do século XX a população pobre se revoltasse contra a arbitrariedade do governo federal. 

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